RIO — Um telefonema, há dias já deixava um aviso de que deveria comparecer a uma exposição de pintura!.: no Clube Satélite, entidade composta de funcionários do Banco do Brasil situada no Estácio que, nas primeiras décadas deste século, juntamente com Vila Isabel, era o reduto dos sambistas, onde o Poeta de Vila — Noel Rosa — nasceu e compôs suas melhores páginas musicais, tais como os antológicos «Feitiço da Vila», «Com que Roupá», «Conversa de Botequim» e «Último Desejo», composições excepcionais que hoje, ontem e amanhã, serão consagradas e eternizadas pelos apreciaores da boa música.
O telefonema afirmava que, dentro em pouco, receberia o convite, já expedido pelo Departamento dos Correios e Telégrafos. A participação era do velho conterrâneo Etelvíno Flores participante do grupo intelectual belmontense, nos idos de 1920 e o evento seria realizado na sexta-feira à noite com a abertura marcada para às 21 horas.
Dia e hora pouco convidativos principalmente para quem reside em, Realengo e ter que ir a cidade para se dirigir ao local determinado, porém teria que enfrentar a situação, pois o pedido do .Etelvino, para mim era uma intimação. O velho Flores é um dos remanescentes daquela respeitável e respeitada geração — em visível desaparecimento — em que a palavra só tinha um significado.
Desde a primeira hora, firmei propósito de comparecer a «mostra» e mantive a ideia com um-estoicismo fora do comum para a minha idade já avançada, aquela em que na véspera confirma, e pela manhã do outro dia a confirmação se transforma nurn talvez para, na «hora H», desistir. De modo geral acontece assim.
Apesar do tempo estar ameaçador "me mandei» para a sede do clube dos bancários e lá cheguei antes da inauguraçao, onde já estava a artista, uma garota de 13 anos que pelo físico, parecia ter menos idade, detalhe este que me surpreendeu. Junto a ela sua mãe Lecí Flores, nascida em Belmonte depois da minha. transferencia para Ilhéus.
Os avós Etelvino e sua esposa Profetina e a Telma, tia da artista, funcionária aposentada da Petrobrás, chegaram depois da inauguração da «mostra».
A hora aprazada, ou seja às 21 horas, foi descerrada a fita e iniciada a visitação aos quadros pintados pela Gilca este o nome da jovem artista, alvo de calorosas manifestações por parte de já numerosa assistência que se comprimia na sala, onde 30 quadros, atestavam a capacidade da garota, demonstrada nos mais variados temas retratados.
Pouca coisa a destacar ante a homogeneidade da ''mostra”, mesclada de retratos, paisagens da natureza ou trechos de ruas antigas. Um. Por do Sol, me trouxe a lembrança de Sosígenes Costa, também belmontense. Um Farol me pareceu homenagem ao faroleiro aposentado, avô da artista. Para os baianos lá estava o Elevador Lacerda, surgindo de uma vela, de barco pesqueiro no cais da tradicional Escola de Aprendizes de Marinheiros. Um coqueiral e uma casinha isolada numa ilha, perto de um retrato de Cristo Crucificado, completavam o salão.
Não me arrependi de ter ido a exposição e constatar a precocidade de Gilca, que nunca frequentou siquer um ateller e nem teve orientação de pintores, se valendo apenas da sua imaginação. Naturalmente com a repercussão do seu trabalho, a jovem" será obrigada a se aprimorar através de uma Escola de Belas Artes, onde pouco tem que aprender.
Daqui meus parabéns aos avós e pais da pequenina artista, cujo cacique-mor, o Etelvino foi o pioneiro, em Belmonte da Campanha Nacional dos Colégios Gratuitos e chefe do Grupo de Escoteiros, movimento responsável pela formação moral e intelectual de centenas de jovens esgalhados por todo o país.
Para Gilca, a pintora precoce, a repetição do êxito daquela sexta-feira no Satélite.
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 20/11/1978
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Expressiva vitória de um garoto de 7 anos.
RIO —Habitualmente, todas as manhãs;-depois do café, leio o JORNAL DO BRASIL». Esportes, Cartas, do Leitor, JB Informa, notas policiais,, falecimentos, são devorados, inicialmente, para depois, «passar a vistam nas outras noticias.
Cumprindo esta rotina, deparo com uma noticia intitulada: «Aluno do Rio Ganha Prêmio». Começo a ler o texto normalmente. Porém vou me entusiasmando à medida que prossigo, terminando a leitura com incontido entusiasmo.
A noticia está assim redigida: «O aluno do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, Gilson Flores de Medeiros, do Jardim de Infância, foi premiado com um urso de pelúcia, no Concursos Infantil de Pintura, promovido pelo Instituto Cultural Brasil-Alemanha sobre o tema: «Como as Crianças Vêem a Republica Federal da Alemã--nhã. Gilson foi o único brasileiro a ter seus trabalhos expostos e receber um prêmio especial da Prefeitura da Cidade de Berlim. Sua irmã Gilka Flores de Medeiros, da 8a. série, do mesmo Instituto, teve duas pinturas classificas no Quadro de Honra».
Existem duas razões para a transcrição desta noticia.
A primeira é destacar a juventude de hoje, que, sem falsa modéstia, se intitula, de «avançada» e chama a nós, veteranos — pais e avós — de «coroas» ou «quadrados» mas, efetivamente, elos aos cardumes, procuram estabelecimentos de ensino, principalmente os ginásios e faculdades, a cata de instrução, enfrentando dificuldades que vão desde a obtenção de vagas e, quando passam no vestibular, o ingresso nos colégios ou faculdades, para em seguida resolver o problema dos livros didáticos, sempre modificados de ano para ano e depois, os constantes e absurdos aumentos determinados pelos colégios cujos proprietários, bem instalados na vida. que exibem suas prosperidades com obras de ampliação nos seus estabelecimentos de ensino.
Destaque-se ainda 'os jovens de família de pequeno poder aquisitivo, que trabalham para financiai' seus estudos -
Infelizmente, nem toda a imprensa ora valora esta juventude sacrificada e estudiosa, não destacando casos como o de Gilka e Gilson, mas o destaque fica para os marginais, onde, infelizmente, se inclui uma minoria de jovens desajustados.
"Mas, vamos ao registro do "Jornal do Brasil».
Os leitores do JORNAL DA MANHÃ devem 'estar lembrados que l«Coisas''Veíhas e Novas» de Novembro do ano passado, com o título de GILKA Uma Pintora Precoce, tece elogios a uma garota de apenas 13 anos, que promoveu, com absoluto sucesso, uma exposição de suas pinturas, no Clube Satélite, na Vila Isabel. É esta Gilka que acaba de ter duas pinturas classificadas no Quadro de Honra do Instituto de Educação e o segundo laureado, com o trabalho apresentado no Concurso Infantil de Pintura, promovido pelo Instituto Cultural Brasil — Alemanha, é simplesmente, seu irmão Gilson Flores de Medeiros, o único brasileiro a ser premiado.
O que o «Jornal do Brasil» não revelou foi a idade de Gilson. Ele tem apenas 7 anos e é filho de Gonçalos Medeiros e Leci Flores de Medeiros que estão radiantes.
Não importa que o laureado não tenha a mínima noção do valor internacional do seu urso de pelúcia, o importante mesmo é o exemplo que Gilson está dando, não só aos-seus coleguinhas do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, mas um incentivo aos componentes da sua geração. Vale assinalar que o avô de Gilson e Gilka, é o conterrâneo amigo Etelvino Flores, um disciplinador que foi adjunto do saudoso professor Lúcio Coelho Júnior, educador de três gerações em Belmonte, cujo nome é lembrado, com o mais alto respeito.
Ao Etelvino, a sua esposa Profetina e a tia «coruja» Telma as sinceras felicitações, idênticas as que envio aos pais dos laureados pintores.
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 25/05 /1979
Cumprindo esta rotina, deparo com uma noticia intitulada: «Aluno do Rio Ganha Prêmio». Começo a ler o texto normalmente. Porém vou me entusiasmando à medida que prossigo, terminando a leitura com incontido entusiasmo.
A noticia está assim redigida: «O aluno do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, Gilson Flores de Medeiros, do Jardim de Infância, foi premiado com um urso de pelúcia, no Concursos Infantil de Pintura, promovido pelo Instituto Cultural Brasil-Alemanha sobre o tema: «Como as Crianças Vêem a Republica Federal da Alemã--nhã. Gilson foi o único brasileiro a ter seus trabalhos expostos e receber um prêmio especial da Prefeitura da Cidade de Berlim. Sua irmã Gilka Flores de Medeiros, da 8a. série, do mesmo Instituto, teve duas pinturas classificas no Quadro de Honra».
Existem duas razões para a transcrição desta noticia.
A primeira é destacar a juventude de hoje, que, sem falsa modéstia, se intitula, de «avançada» e chama a nós, veteranos — pais e avós — de «coroas» ou «quadrados» mas, efetivamente, elos aos cardumes, procuram estabelecimentos de ensino, principalmente os ginásios e faculdades, a cata de instrução, enfrentando dificuldades que vão desde a obtenção de vagas e, quando passam no vestibular, o ingresso nos colégios ou faculdades, para em seguida resolver o problema dos livros didáticos, sempre modificados de ano para ano e depois, os constantes e absurdos aumentos determinados pelos colégios cujos proprietários, bem instalados na vida. que exibem suas prosperidades com obras de ampliação nos seus estabelecimentos de ensino.
Destaque-se ainda 'os jovens de família de pequeno poder aquisitivo, que trabalham para financiai' seus estudos -
Infelizmente, nem toda a imprensa ora valora esta juventude sacrificada e estudiosa, não destacando casos como o de Gilka e Gilson, mas o destaque fica para os marginais, onde, infelizmente, se inclui uma minoria de jovens desajustados.
"Mas, vamos ao registro do "Jornal do Brasil».
Os leitores do JORNAL DA MANHÃ devem 'estar lembrados que l«Coisas''Veíhas e Novas» de Novembro do ano passado, com o título de GILKA Uma Pintora Precoce, tece elogios a uma garota de apenas 13 anos, que promoveu, com absoluto sucesso, uma exposição de suas pinturas, no Clube Satélite, na Vila Isabel. É esta Gilka que acaba de ter duas pinturas classificadas no Quadro de Honra do Instituto de Educação e o segundo laureado, com o trabalho apresentado no Concurso Infantil de Pintura, promovido pelo Instituto Cultural Brasil — Alemanha, é simplesmente, seu irmão Gilson Flores de Medeiros, o único brasileiro a ser premiado.
O que o «Jornal do Brasil» não revelou foi a idade de Gilson. Ele tem apenas 7 anos e é filho de Gonçalos Medeiros e Leci Flores de Medeiros que estão radiantes.
Não importa que o laureado não tenha a mínima noção do valor internacional do seu urso de pelúcia, o importante mesmo é o exemplo que Gilson está dando, não só aos-seus coleguinhas do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, mas um incentivo aos componentes da sua geração. Vale assinalar que o avô de Gilson e Gilka, é o conterrâneo amigo Etelvino Flores, um disciplinador que foi adjunto do saudoso professor Lúcio Coelho Júnior, educador de três gerações em Belmonte, cujo nome é lembrado, com o mais alto respeito.
Ao Etelvino, a sua esposa Profetina e a tia «coruja» Telma as sinceras felicitações, idênticas as que envio aos pais dos laureados pintores.
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 25/05 /1979
Crispim e Crispiniano da Senhora.
RIO — Nas décadas de 1920 e 1930, as festas em louvor aos santos mais populares eram animadíssimas, principalmente quando comemoradas em casas particulares, tais como as dedicadas aos santos Antônio, João, Pedro, Cosme-Damião, Crispim-Crispiniano e Sebastião.
As turmas do futebol, comércio, estiva e até estudantes, sabiam onde todos os anos, podiam se encontrar.
No mês de Junho, em todos os recantos da cidade, se realizavam festividades quasi sempre terminadas em baile: principalmente quando fossem em homenagem ao casamenteiro
Antônio e ao santo das sortes,São João. Mas em Setembro e Outubro também recebiam homenagens expressivas os gêmeos Cosme-Damião e Crispim-Crispiniano. Eles recebiam louvores diferentes dos demais, com expressão ao mártir padroeiro dos estivadores e da cidade, São Sebastião. O azeite de dendê, por motivos que só o Rubens Correia pode explicar, se destaca nos festejes dedicados a estes . santos.
Em outras crônicas já me referi às principais casas que em Ilhéus, promoviam festividades em louvor aos populares santos citados, reunindo moças e rapazes em novenas, trezenas e tríduos, em casas de famílias. Na crônica do hoíe vou relatar uma ocorrência……
Senhora, uma rapariga "protegida" do mecânico Juvenal, costumava homenagear Crispim e Crispiniano, na sua casa, ali na Araújo Pinho, onde hoje é um estabelecimento comercial. Casa de dois andares, ela ocupava o segundo pavimento.
Senhora se preparava durante os 365 dias do ano, para realizar a festa do dia 27 de Outubro. Naturalmente escolhia seus convidados com, muito escrúpulo para evitar incidentes com as suas "clientes", ou melhor com os donos das suas "clientes» que, naquele dia não poderiam assumir nenhum compromisso. Ninguém entrava na casa sem a sua autorização. Para isto só ela podia abrir a porta da casa que, desde cedo começava a receber os convidados.
O altar dos santos ficava em frente a escadaria, obrigando os participantes, à entrada, fazer uma oferenda aos "meninos". Ao lado uma grande mesa tendo ao cento o peru assado que deveria ser destrinchado depois da meia-noite. O caruru, vatapá "e"outras "gulozeimas já estavam sendo distribuídos e pelo menos íntimos nada. Para os do peito" o atendimento seria melhor.
Eu participava da “turma da casa”. Justamente esta turma começou…… A tarefa era difícil, principalmente devido o fato da chave única porta estar em poder da dona da festa.
Dentre a nossa turma estavam Otavinho, Caetano Alcobaça, Carlos Rogaciano, Adamastor e Rubens Reis, um operador de cinema. Depois do planejamento, convidamos o chefe do destacamento policial, sarg. Manoel Alves e Martinho Saxofonista. Este teria a tarefa de prolongar o máximo na. execução de "Olhos Verdes", cantado pelo Rogaciano enquanto descíamos com o galináceo, justamente na hora em que Caetano estivesse dansando com Senhcra, obrigando-a a dar a chave a um de nós.
Tudo correu muito bem. O peru foi raptado, tendo servido de amparo a capa do sargento Manoel Alves, e levado para um restaurante de Garangau, na Paranaguá.
A descoberta do rapto foi uma tragédia. Senhora, chorando, ajoelhou-se ante o altar dos seus santos, e rogou uma praga com tanto sentimento que, todos participantes do roubo, após saborear um bem aparado ensopado do peru, preparado por Garangau tiveram que recorrer ao Ferreira do Posto, ali na Prefeitura.
Creio que Senhora nunca soube quem “afanou” a ave de Crispim e Crispiniano não souberam tomar conta.
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 03/11/1978
As turmas do futebol, comércio, estiva e até estudantes, sabiam onde todos os anos, podiam se encontrar.
No mês de Junho, em todos os recantos da cidade, se realizavam festividades quasi sempre terminadas em baile: principalmente quando fossem em homenagem ao casamenteiro
Antônio e ao santo das sortes,São João. Mas em Setembro e Outubro também recebiam homenagens expressivas os gêmeos Cosme-Damião e Crispim-Crispiniano. Eles recebiam louvores diferentes dos demais, com expressão ao mártir padroeiro dos estivadores e da cidade, São Sebastião. O azeite de dendê, por motivos que só o Rubens Correia pode explicar, se destaca nos festejes dedicados a estes . santos.
Em outras crônicas já me referi às principais casas que em Ilhéus, promoviam festividades em louvor aos populares santos citados, reunindo moças e rapazes em novenas, trezenas e tríduos, em casas de famílias. Na crônica do hoíe vou relatar uma ocorrência……
Senhora, uma rapariga "protegida" do mecânico Juvenal, costumava homenagear Crispim e Crispiniano, na sua casa, ali na Araújo Pinho, onde hoje é um estabelecimento comercial. Casa de dois andares, ela ocupava o segundo pavimento.
Senhora se preparava durante os 365 dias do ano, para realizar a festa do dia 27 de Outubro. Naturalmente escolhia seus convidados com, muito escrúpulo para evitar incidentes com as suas "clientes", ou melhor com os donos das suas "clientes» que, naquele dia não poderiam assumir nenhum compromisso. Ninguém entrava na casa sem a sua autorização. Para isto só ela podia abrir a porta da casa que, desde cedo começava a receber os convidados.
O altar dos santos ficava em frente a escadaria, obrigando os participantes, à entrada, fazer uma oferenda aos "meninos". Ao lado uma grande mesa tendo ao cento o peru assado que deveria ser destrinchado depois da meia-noite. O caruru, vatapá "e"outras "gulozeimas já estavam sendo distribuídos e pelo menos íntimos nada. Para os do peito" o atendimento seria melhor.
Eu participava da “turma da casa”. Justamente esta turma começou…… A tarefa era difícil, principalmente devido o fato da chave única porta estar em poder da dona da festa.
Dentre a nossa turma estavam Otavinho, Caetano Alcobaça, Carlos Rogaciano, Adamastor e Rubens Reis, um operador de cinema. Depois do planejamento, convidamos o chefe do destacamento policial, sarg. Manoel Alves e Martinho Saxofonista. Este teria a tarefa de prolongar o máximo na. execução de "Olhos Verdes", cantado pelo Rogaciano enquanto descíamos com o galináceo, justamente na hora em que Caetano estivesse dansando com Senhcra, obrigando-a a dar a chave a um de nós.
Tudo correu muito bem. O peru foi raptado, tendo servido de amparo a capa do sargento Manoel Alves, e levado para um restaurante de Garangau, na Paranaguá.
A descoberta do rapto foi uma tragédia. Senhora, chorando, ajoelhou-se ante o altar dos seus santos, e rogou uma praga com tanto sentimento que, todos participantes do roubo, após saborear um bem aparado ensopado do peru, preparado por Garangau tiveram que recorrer ao Ferreira do Posto, ali na Prefeitura.
Creio que Senhora nunca soube quem “afanou” a ave de Crispim e Crispiniano não souberam tomar conta.
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 03/11/1978
Desabafo de um cantor de ópera
RIO - "Uma verdade patente os italianos, na sua maioria, são verdade apaixonados pela maravilhosa e sublime arte musical. São também dotados de uma sensibilidade canora "fora de série".
A história da música, desde seus primórdios comprova esta assertiva, além de dar uma certa confiança a qualquer romano, mesmo despreparado para enfrentar qualquer ambiente e exibir seus dotes musicais, cantando trechos dos extraordinários compositores como Giuseppe Verdi, Giacomo Puccini Gioachino Rosaini, Pietro Mascafini e tantos outros patrícios de fama internacional.
Creio ser muito difícil encontrar um italiano, principalmente dentre os mais maduros que, pelo menos, não saiba cantarolar trechos de “Cavaleria Rusticana”, “Madame Butterfly”, "II Barbieri de Siviblia", “La Traviaita", “La Boheme” e “Ainda” , todas de conterrâneos seus, peças obrigatórias do repertório de cantores internacionais, conhecidas mundialmente.
No início deste século, Belmonte foi, podemos dizer, invadida por inúmeras famílias italianas, algumas das quaia não mais deixaram a cidade, onde vivem seus remanescentes, como os Magnavits, os Paternostros, os Trocolis. Outras como os Tostes, Stolzes e os Guerrieres se embrenharam no interior do município. Dos Carnovalis, Gervasis e Lamarcas não se tem notícias. Os Storinos tem seus últimos remanescentes residindo em Salvador e aqui no Rio.
Os italianos, na sua maioria absoluta em Belmonte, ingressaram no comércio de fazendas, instalando suas lojas na Praça 13 de Maio, por este motivo conhecida como a Praça dos Gringos, onde morava uma espécie de patriarca da turma, Alexandre Magnavtta, cujo defeito físico motivado por um desastre caseiro, era cognominado Alexandre Coxo.
Além de sedus pendores para a cantoria, os italianos são inclinados a arte a arte da tesoura, exercendo com invulgar destaque a profisão de alfaiate com maestria.
Dentre os italianos que aportaraa em Belmonte estava o alfaiate Vicente Marseli, bastante conhecido em Ilhéus, para onda onde transferiu ao encontro de pessoas de sua família, terminando seus dias, dos bem vividos 9o anos. Seu corpo está no cemitério da Vitoria.
Vicente Marselli não podia fugir a regra da inclinação italiana para a música. Era também alfaiate e, enquanto confecionava as roupas dos fregueses cantarolava os tradicionais trechos de óperas mais populares, as mesmas que deram fama a cantores como Tito Schippa e Caruso.
Aos domingos Marselli gostava de se reunir, com seus amigos e conhecidos no “Grande ponto”, bar existente na Praça, dos Gringos, para tomar uns “tragos” e, com sua boa voz de barítono cantar suas músicas prediletas. Encontro rotineiro.
Certo dia, ou melhor, certo domingo, o nosso alfaiate ultrapassou com a cantoria, a hora do almoço, obrigando a esposa mandar chamá-lo.
Não sendo atendida, novo chamado, este agora por intermédio do filho Chiquinho Marselli, que cumprindo ordens, não mais deixou o pai e repetia o recado "Papai mamães está chamando". A insistência irritou o velho Marselli a certa hora exclamou zangado:
Que diabo. Já não se pode mais tomar um porre socegado.
Rubens E. da Silva
A história da música, desde seus primórdios comprova esta assertiva, além de dar uma certa confiança a qualquer romano, mesmo despreparado para enfrentar qualquer ambiente e exibir seus dotes musicais, cantando trechos dos extraordinários compositores como Giuseppe Verdi, Giacomo Puccini Gioachino Rosaini, Pietro Mascafini e tantos outros patrícios de fama internacional.
Creio ser muito difícil encontrar um italiano, principalmente dentre os mais maduros que, pelo menos, não saiba cantarolar trechos de “Cavaleria Rusticana”, “Madame Butterfly”, "II Barbieri de Siviblia", “La Traviaita", “La Boheme” e “Ainda” , todas de conterrâneos seus, peças obrigatórias do repertório de cantores internacionais, conhecidas mundialmente.
No início deste século, Belmonte foi, podemos dizer, invadida por inúmeras famílias italianas, algumas das quaia não mais deixaram a cidade, onde vivem seus remanescentes, como os Magnavits, os Paternostros, os Trocolis. Outras como os Tostes, Stolzes e os Guerrieres se embrenharam no interior do município. Dos Carnovalis, Gervasis e Lamarcas não se tem notícias. Os Storinos tem seus últimos remanescentes residindo em Salvador e aqui no Rio.
Os italianos, na sua maioria absoluta em Belmonte, ingressaram no comércio de fazendas, instalando suas lojas na Praça 13 de Maio, por este motivo conhecida como a Praça dos Gringos, onde morava uma espécie de patriarca da turma, Alexandre Magnavtta, cujo defeito físico motivado por um desastre caseiro, era cognominado Alexandre Coxo.
Além de sedus pendores para a cantoria, os italianos são inclinados a arte a arte da tesoura, exercendo com invulgar destaque a profisão de alfaiate com maestria.
Dentre os italianos que aportaraa em Belmonte estava o alfaiate Vicente Marseli, bastante conhecido em Ilhéus, para onda onde transferiu ao encontro de pessoas de sua família, terminando seus dias, dos bem vividos 9o anos. Seu corpo está no cemitério da Vitoria.
Vicente Marselli não podia fugir a regra da inclinação italiana para a música. Era também alfaiate e, enquanto confecionava as roupas dos fregueses cantarolava os tradicionais trechos de óperas mais populares, as mesmas que deram fama a cantores como Tito Schippa e Caruso.
Aos domingos Marselli gostava de se reunir, com seus amigos e conhecidos no “Grande ponto”, bar existente na Praça, dos Gringos, para tomar uns “tragos” e, com sua boa voz de barítono cantar suas músicas prediletas. Encontro rotineiro.
Certo dia, ou melhor, certo domingo, o nosso alfaiate ultrapassou com a cantoria, a hora do almoço, obrigando a esposa mandar chamá-lo.
Não sendo atendida, novo chamado, este agora por intermédio do filho Chiquinho Marselli, que cumprindo ordens, não mais deixou o pai e repetia o recado "Papai mamães está chamando". A insistência irritou o velho Marselli a certa hora exclamou zangado:
Que diabo. Já não se pode mais tomar um porre socegado.
Rubens E. da Silva
Dos tranquilos veleiros aos carros ameaçadores.
RIO — Dias antes, já havia lido, no Informe JB — Coluna da minha preferência, no "Jornal do Brasil" — o tópico em que o articulista, dentro do seu tradicional e satírico estilo, afirmava que "os fazendeiros de cacau se deliciam "ao mar", em escunas caríssimas, ao largo de Ilhéus, nos fins: de semana".
Achei muito natural que os fazendeiros estivessem se modernizando. Afinal com suas extraordinárias rendas, obtidas com a alta do preço do seu produto que, há cerca de quatro anos, ninguém acreditava, não era justo continuassem, os fazendeiros, com seus tradicionais gastos, ou seja: casas na sua cidade, em Salvador, Rio e São Paulo, em alguns casos, adicionados com mais uma família. Repito que não era justo ficarem os fazendeiros -— que nunca estão satisfeitos com os preços do seu produto — rotina de muitos anos quando a atualidade é bem diferente e todos procuram se sofisticar, Penso até que um iate ainda é pouco. Que tal um avião?
Mas, se assim eu penso, o mesmo não acontece que o, para mim, jovem Fernando Tavares Dórea, filho do meu antigo chefe Francisco da S. Dórea, nascido, creio que na Rua da Linha e posteriormente, mudou-se para a Av. Soares Lopes, gozando as delicias de uma belíssima praia, enquanto seu pai fazia fregueses e amigos na sua loja Variedades, na Rua Pedro II, "a expoente máxima dos preços mínimos".
Até certo ponto, entretanto, acho justa a reação do fazendeiro e produtor. O que estranhei foram os termos, poucos corteses, usados para contestar a nota do apreciado articulista, diferentes dos que, certamente, seriam usados, pelo extinto fundador e diretor do "Diario", jornal que modificou as normas adotadas, na época, de retalhiações aos adversários e suas famílias, com resultados, muitas vezes desastrosos.
Solicitar ao articulista do "Jornal do Brasil", um mínimo de respeito por uma comunidade responsável, como a dos fazendeiros de cacau, porque estes sustentam este País, com as divisas que, sobem a mais de l bilhão de dólares por ano e que este bilhão "talvez sirva para para pagar o papel de imprensa, importado, a fim de que um inconsciente tenha campo para escrever tamanha sandice", é mesmo o fim.
O que poderia dizer o Zé Povinho, incluindo os trabalhadores rurais, que vêem "guentando" os sucessivos aumentos das autoridades fiscalizadoras do País?
Não sei se é o caso do fazendeiro-produtor, porém grande parte dos seus colegas, que até pouco tempo estavam dispostos em "mudar de ramo”, mantém armazéns ;e, o que é pior, obrigando os trabalhadores a fazerem "arrumação" no seu estabelecimento que, sem pagar impostos, vende a mercadoria por preços incríveis.
Dizer que, a comunidade dos fazendeiros precisa de um mínimo de respeito só porque divulga notas que, em absoluto ferem a sua idoneidade, francamente não entendi. Creio que também a maioria absoluta dos agricultores da vasta região cacaueira não entendeu pois, se assim fosse, não haveria espaço, no jornal carioca, para receber cartas de protestos contra a insólita nota, para mim, pitoresca e gozadora. Estive ultimamente em Ilhéus, onde notei muito progresso e uma febre de construções. Muitos prédios — velhos e até mais ou menos novos — demolidos para dar lugar a agências bancárias e casas residenciais. A cidade crescendo por todos os lados e varando alturas. Parece que está voltando aos idos de 1920.
Nesta grande movimentação, de fato, não vi um só veleiro;"ao maré", em compensação lá estavam" atravançando as ruas e avenidas belos e possantes carros nacionais dirigidos ameaçadoramente sem "um mínimo de réspeito à comunidade", pelos filhos daqueles que formam uma "classe progressista e laboriosa através do seu trabalho diuturno", sem tempo portanto, de frear os instintos dos seus motoristas.
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 15/08/1979
Achei muito natural que os fazendeiros estivessem se modernizando. Afinal com suas extraordinárias rendas, obtidas com a alta do preço do seu produto que, há cerca de quatro anos, ninguém acreditava, não era justo continuassem, os fazendeiros, com seus tradicionais gastos, ou seja: casas na sua cidade, em Salvador, Rio e São Paulo, em alguns casos, adicionados com mais uma família. Repito que não era justo ficarem os fazendeiros -— que nunca estão satisfeitos com os preços do seu produto — rotina de muitos anos quando a atualidade é bem diferente e todos procuram se sofisticar, Penso até que um iate ainda é pouco. Que tal um avião?
Mas, se assim eu penso, o mesmo não acontece que o, para mim, jovem Fernando Tavares Dórea, filho do meu antigo chefe Francisco da S. Dórea, nascido, creio que na Rua da Linha e posteriormente, mudou-se para a Av. Soares Lopes, gozando as delicias de uma belíssima praia, enquanto seu pai fazia fregueses e amigos na sua loja Variedades, na Rua Pedro II, "a expoente máxima dos preços mínimos".
Até certo ponto, entretanto, acho justa a reação do fazendeiro e produtor. O que estranhei foram os termos, poucos corteses, usados para contestar a nota do apreciado articulista, diferentes dos que, certamente, seriam usados, pelo extinto fundador e diretor do "Diario", jornal que modificou as normas adotadas, na época, de retalhiações aos adversários e suas famílias, com resultados, muitas vezes desastrosos.
Solicitar ao articulista do "Jornal do Brasil", um mínimo de respeito por uma comunidade responsável, como a dos fazendeiros de cacau, porque estes sustentam este País, com as divisas que, sobem a mais de l bilhão de dólares por ano e que este bilhão "talvez sirva para para pagar o papel de imprensa, importado, a fim de que um inconsciente tenha campo para escrever tamanha sandice", é mesmo o fim.
O que poderia dizer o Zé Povinho, incluindo os trabalhadores rurais, que vêem "guentando" os sucessivos aumentos das autoridades fiscalizadoras do País?
Não sei se é o caso do fazendeiro-produtor, porém grande parte dos seus colegas, que até pouco tempo estavam dispostos em "mudar de ramo”, mantém armazéns ;e, o que é pior, obrigando os trabalhadores a fazerem "arrumação" no seu estabelecimento que, sem pagar impostos, vende a mercadoria por preços incríveis.
Dizer que, a comunidade dos fazendeiros precisa de um mínimo de respeito só porque divulga notas que, em absoluto ferem a sua idoneidade, francamente não entendi. Creio que também a maioria absoluta dos agricultores da vasta região cacaueira não entendeu pois, se assim fosse, não haveria espaço, no jornal carioca, para receber cartas de protestos contra a insólita nota, para mim, pitoresca e gozadora. Estive ultimamente em Ilhéus, onde notei muito progresso e uma febre de construções. Muitos prédios — velhos e até mais ou menos novos — demolidos para dar lugar a agências bancárias e casas residenciais. A cidade crescendo por todos os lados e varando alturas. Parece que está voltando aos idos de 1920.
Nesta grande movimentação, de fato, não vi um só veleiro;"ao maré", em compensação lá estavam" atravançando as ruas e avenidas belos e possantes carros nacionais dirigidos ameaçadoramente sem "um mínimo de réspeito à comunidade", pelos filhos daqueles que formam uma "classe progressista e laboriosa através do seu trabalho diuturno", sem tempo portanto, de frear os instintos dos seus motoristas.
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 15/08/1979
De macumba a Centro Espírita.
RIO.— Ainda me lembro. Naquela noite, depois de uma .passagem na ''zona", a turma da qual participavam Osvaldo Mota, Carlos Rogaciano, Tercílio França e outros, resolveu assisíir a uma macumba, lá pelos lados do Iguape, onde haveria uma espécie de iniciação de umas candidatas a "Mãe de Santo". Teria um verdadeiro. banquete com caruru, vatapá, galinha de Xim-xím e outras íguarias, motivo princínal da nossa visita ao local tão distante e despovoado.
Chegamos um pouco antes do ritual marcado para meia-noite e, meio de muita gente e animação, estavam os animais que seriam sacrificados, tais como bodes, cabritos, galinhas, etc.
Faltavam poucos minutos para "fazer as cabeças. Os algozes, empunhando suas facas, se preparavam para a matança, quando, sob o comando do Tenente Izaias, chega a caravana policial e, numa espécie de “abafa" deixa os participantes sem ação para fugirem. Presos os principais responsáveis e feita uma 'triagem" para separar "privilegiados" foi organizada uma "canoa" puxada pelo "pai de santo7', transportando os apetrechos da macumba para a delegacia, no centro da cidade, numa marcha a pé.
Assim era tratado, naquele tempo, o candomblé, muito diferente dos dias de hoje, livres de perseguições policiais e proliferando assustadoramente em todos os recantos.
Mas, ao contrario do que acontecia aos macumbeiros, os centros espíritas, principalmente os doutrinários, tinham amparo das autoridades, organizados e registados que eram.
Não sei porque não era chegado ao espiritismo, mesmo sabendo do seu cunho científico. Muitas vezes recebia convites para participar de reuniões espíritas, mas sempre arranjava meios e desculpas para não comparecer. Uma das pessoas que mais insistia era o velho amigo e farmacêutico Martiniano de Almeida presídentede um dos mais antigos centros da cidade, localizado na Fonte da Cruz. A insistência do convite acabou me convencendo e, certo dia, numa festa de aniversário, fui assistir, a solenidade.
A primeira parte, social, presidida pelo saudoso Joaquim Sales, decorreu rotineiramente. Depois veio a parte espiritual quando notei uma transformação, a começar pelo ambiente. Os semblantes da maioria já não eram os mesmos da mesma forma que o ritual. Aconpanhava tudo com interesse e até certa desconfiança.
Mas um fato me deixou impressiona-do. Acerta altura, Juvenal, conhecido tamanqueiro, levanta-se e pronuncia vibrante discurso doutrinário. Não conhecesse o Juvenal, operário semi-analfabeto, aceitaria, como natural àquele pronunciamento, porém. fiquei certo de que não era o humilde. tamanqueiro que estava ali. Era alguém de rara inte-ügência.
Quem estaria se servindo do Juvenal para transmitir tão expressiva mensagem?
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 06/05/1978
Chegamos um pouco antes do ritual marcado para meia-noite e, meio de muita gente e animação, estavam os animais que seriam sacrificados, tais como bodes, cabritos, galinhas, etc.
Faltavam poucos minutos para "fazer as cabeças. Os algozes, empunhando suas facas, se preparavam para a matança, quando, sob o comando do Tenente Izaias, chega a caravana policial e, numa espécie de “abafa" deixa os participantes sem ação para fugirem. Presos os principais responsáveis e feita uma 'triagem" para separar "privilegiados" foi organizada uma "canoa" puxada pelo "pai de santo7', transportando os apetrechos da macumba para a delegacia, no centro da cidade, numa marcha a pé.
Assim era tratado, naquele tempo, o candomblé, muito diferente dos dias de hoje, livres de perseguições policiais e proliferando assustadoramente em todos os recantos.
Mas, ao contrario do que acontecia aos macumbeiros, os centros espíritas, principalmente os doutrinários, tinham amparo das autoridades, organizados e registados que eram.
Não sei porque não era chegado ao espiritismo, mesmo sabendo do seu cunho científico. Muitas vezes recebia convites para participar de reuniões espíritas, mas sempre arranjava meios e desculpas para não comparecer. Uma das pessoas que mais insistia era o velho amigo e farmacêutico Martiniano de Almeida presídentede um dos mais antigos centros da cidade, localizado na Fonte da Cruz. A insistência do convite acabou me convencendo e, certo dia, numa festa de aniversário, fui assistir, a solenidade.
A primeira parte, social, presidida pelo saudoso Joaquim Sales, decorreu rotineiramente. Depois veio a parte espiritual quando notei uma transformação, a começar pelo ambiente. Os semblantes da maioria já não eram os mesmos da mesma forma que o ritual. Aconpanhava tudo com interesse e até certa desconfiança.
Mas um fato me deixou impressiona-do. Acerta altura, Juvenal, conhecido tamanqueiro, levanta-se e pronuncia vibrante discurso doutrinário. Não conhecesse o Juvenal, operário semi-analfabeto, aceitaria, como natural àquele pronunciamento, porém. fiquei certo de que não era o humilde. tamanqueiro que estava ali. Era alguém de rara inte-ügência.
Quem estaria se servindo do Juvenal para transmitir tão expressiva mensagem?
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 06/05/1978
Estranho ritual da Pérola desaparecida
“RIO — Conheci meu personagem de hoje quando, nos idos de 1930 fazia “cobertura” das excursões, esportivas pelo interior ilheense, através da ‘‘State” e peia primeira vez fui “me bater" . em Pirangi, refúgio de personagens da contestada zona de Sequeiro do Espinho. O primeiro contato foi por inter médio do sempre lembrado colega Antônio Benvindo Teixeira, extraordinária pessoa humana possuidor de um modo especial de fazer amigos e transferi-los para seus amigos mais chegados,
Estou me referindo a Antônio Peres, hoje novamente de mãos dadas com a prosperidade. Outra vez, sim senhor. Isto porque quando o conheci há cerca de 50 anos, estava bem situado na praça do outrora distrito de Ilhéus, com crédito ilimitado. Depois por verdadeiro idealismo ingressou na política e, como todo idealista que entra em política de corpo e alma, acabou quase que naufragado, só se recuperando, anos depois, graças ao esforço e tenacidade, numa demonstração do quanto vale a popular, máxima do poder é querer.
Antonio Peres, juntamente com Jovelina Andrade, batizou minha filha Augusta. Hoje desenvolve intensa atividade no seu território de representação aí na Rua Sete de Setembro, onde o labor não empata de, vez por outra, contar anedotas e "casos", como que para amenizar o "lesco-lesco" do embarque e desembarque das mercadorias, sem “esquecer" as anotações das vendas nem o envio das duplicatas.
Todos os anos encontro o compadre atarefado. Porém por mais atarefado que esteja sempre arranja tempo para um "sabe da última?' ou "conhece esta?" também aproveito para “soltar'' alguma, nos rápidos momentos.
Tenho plena certeza de que Peres não se lembra, de uma ocorrência inusitada quando visitava um velho amigo no Pontal, há rnais de 40 anos e que passo hoje para esta coluna.
Aproveitando urna tarde sem altos compromissos, o compadre resolveu visitar utm velho amigo, juntamente com sua esposa Ester. Era um companheiro dos momentos das "vacas magras". Haviam vívido juntos a "intempérie" dos péssimos negócios, mais cedo do que esperava, os bons ventos sopraram em favor do colega e na escala cromática da sorte o amigo havia somado muitos pontos colocando em situação privilegiada.
Era uma visita de surpresa, mesmo porque a amizade existente entre os "dois era irrestrita o que garantia uma recepção, tipo entre famílias.
Ao chegar a casa do companheiro, encontrando a poria aberta o casal foi logo entrando, indo até a sala de jantar, onde um quadro até certo; ponto estranho, motivou uma rápida parada. Sobre a mesa uma bonita gaiola imobilizava um bonito tucano. Em redor da casa, inclusive a empregada, como que contritos parecendo até que balbuciava frases estranhas, imitando uma reunião de umbanda. Ninguém tirava os olhos do Tucano que por sua vez se mostrava espantado. A cena deixou o casal estático e um tanto apreensivo em duvida se devia ou não interromper a 'concentração.
Como que despertando, a esposa do amigo se apressou em explicar o .motivo da concentração, que o Peres já estava pensando ser um ato de adoração ao Tucano e que aquilo devia vir se repetindo normalmente.
Tratava-se do seguinte: Nas primeiras horas da tarde o casal se preparava para ir a Ilhéus quando, dando os últimos ."retoques" a dona da casa resolveu apanhar a caixa de jóias para escolher os brincos que ia usar. Guando apanhou o adereço, o pássaro, com seu longo bico "grampeou” a pérola do alfinete da gravata do marido, engolindo-o para o espanto e desespero do casal. Como solução resolveram que a jóia engolida seria facilmente "devolvida" caso se pudesse "encher" a ave do alimentação. E era o que eles estavam tentando fazer.
Entretanto a estratégia não eslava dando certo, pois há mais de três horas que o Tucano estava sendo forçado a se aumentar com as mais variadas frutas e continuava guardando no seu papo a linda e caríssima pérola que ainda por cima era de estimação.
O Peres e a patroa chegaram a participar da operação sem resultados práticos, já que o Tucano dando mostra de cansaço caiu num sono profundo e os 'trabalhos' transferidos para outro dia.
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 27/02/1981
Estou me referindo a Antônio Peres, hoje novamente de mãos dadas com a prosperidade. Outra vez, sim senhor. Isto porque quando o conheci há cerca de 50 anos, estava bem situado na praça do outrora distrito de Ilhéus, com crédito ilimitado. Depois por verdadeiro idealismo ingressou na política e, como todo idealista que entra em política de corpo e alma, acabou quase que naufragado, só se recuperando, anos depois, graças ao esforço e tenacidade, numa demonstração do quanto vale a popular, máxima do poder é querer.
Antonio Peres, juntamente com Jovelina Andrade, batizou minha filha Augusta. Hoje desenvolve intensa atividade no seu território de representação aí na Rua Sete de Setembro, onde o labor não empata de, vez por outra, contar anedotas e "casos", como que para amenizar o "lesco-lesco" do embarque e desembarque das mercadorias, sem “esquecer" as anotações das vendas nem o envio das duplicatas.
Todos os anos encontro o compadre atarefado. Porém por mais atarefado que esteja sempre arranja tempo para um "sabe da última?' ou "conhece esta?" também aproveito para “soltar'' alguma, nos rápidos momentos.
Tenho plena certeza de que Peres não se lembra, de uma ocorrência inusitada quando visitava um velho amigo no Pontal, há rnais de 40 anos e que passo hoje para esta coluna.
Aproveitando urna tarde sem altos compromissos, o compadre resolveu visitar utm velho amigo, juntamente com sua esposa Ester. Era um companheiro dos momentos das "vacas magras". Haviam vívido juntos a "intempérie" dos péssimos negócios, mais cedo do que esperava, os bons ventos sopraram em favor do colega e na escala cromática da sorte o amigo havia somado muitos pontos colocando em situação privilegiada.
Era uma visita de surpresa, mesmo porque a amizade existente entre os "dois era irrestrita o que garantia uma recepção, tipo entre famílias.
Ao chegar a casa do companheiro, encontrando a poria aberta o casal foi logo entrando, indo até a sala de jantar, onde um quadro até certo; ponto estranho, motivou uma rápida parada. Sobre a mesa uma bonita gaiola imobilizava um bonito tucano. Em redor da casa, inclusive a empregada, como que contritos parecendo até que balbuciava frases estranhas, imitando uma reunião de umbanda. Ninguém tirava os olhos do Tucano que por sua vez se mostrava espantado. A cena deixou o casal estático e um tanto apreensivo em duvida se devia ou não interromper a 'concentração.
Como que despertando, a esposa do amigo se apressou em explicar o .motivo da concentração, que o Peres já estava pensando ser um ato de adoração ao Tucano e que aquilo devia vir se repetindo normalmente.
Tratava-se do seguinte: Nas primeiras horas da tarde o casal se preparava para ir a Ilhéus quando, dando os últimos ."retoques" a dona da casa resolveu apanhar a caixa de jóias para escolher os brincos que ia usar. Guando apanhou o adereço, o pássaro, com seu longo bico "grampeou” a pérola do alfinete da gravata do marido, engolindo-o para o espanto e desespero do casal. Como solução resolveram que a jóia engolida seria facilmente "devolvida" caso se pudesse "encher" a ave do alimentação. E era o que eles estavam tentando fazer.
Entretanto a estratégia não eslava dando certo, pois há mais de três horas que o Tucano estava sendo forçado a se aumentar com as mais variadas frutas e continuava guardando no seu papo a linda e caríssima pérola que ainda por cima era de estimação.
O Peres e a patroa chegaram a participar da operação sem resultados práticos, já que o Tucano dando mostra de cansaço caiu num sono profundo e os 'trabalhos' transferidos para outro dia.
Rubens E Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 27/02/1981
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