quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A Eficiência da Polícia Vienense

RIO — Em duas crônicas, publiquei ha meses, nesta coluna, um detalhado relato da conterrânea Telma Flores, de sua excursão a Europa e África, levando a "tiracolo" sua sobrinha e nossa conhecida Gilca a "Pintora Precoce", filha de Lecy Medeiros Flores, também pintora como pintores são os seus pequeninos irmãos Gilson e Gilmar, per sinal todos laureados.

A minuciosa descrição feita pela itinerante, começou na Europa com o pouso em Madrid, seguindo depois para Escorial, Vaie dos Los Caídos, Toledo, Casablanca, Marrocos, Nice, Atenas,- Londres, Mônaco, Viena, Portugal e fechando o circuito nova passagem em Madrid para o regresso ao Brasil. Telma caprichou no relatório, expondo seus dotes de verdadeira repórter. Como "apêndice" igualmente atendendo meu apelo, Gilca-"pintou" sua excursão, expressando uma alegria digna de nota, pelos 28 dias da viagem, durante os quais, destacou os salões de pinturas, as floridas ruas de Nice e apoteótica benção que recebeu, como milhares de fiéis, do Papa João Paulo II quando o sumo pontífice se preparava para a inesquecível visita ao Brasil e terminava a sua caria a satisfação pelo "banho" de cultura recebido durante a viagem maravilhosa.

Entretanto nem Telma e nem Gilca relataram uma "passagem" da viagem ocorrida em Viena e que jamais sairá de suas lembranças. Creio que silêncio em torno do assunto tenha sido o receio de criticas por parte das pessoas de atenção. Porém o fato veio ao conhecimento público através de um apreciadíssimo debate radiofônico de grande audiência. Vamos ao caso:

Nos três dias em que a delegação "estacionou" em Viena, todos se movimentaram a vontade, não dando "bola" ao mau tempo reinante e responsável pelas barrentas águas do tradicional Danúbio Azul cantado, como os bosques, em lindas c inesquecíveis valsas imortalizadas por sucessivas gerações. As ricas bibliotecas, os belos edifícios e os famosos palácios como o Schonbrunn, foram "esmiuçados" avidamente da mesma forma como foram "caçados" os "recuerdos". Tudo era visto como um sonho das mil e uma noites, principalmente pela Gilca que no auge do encantamento.perdeu sua bolsa-sacola, só dando pelo desaparecimento horas depois quando deu o alarme, deixando os companheiros em polvorosa e se “virando" para encontrar a pasta onde estavam dentre outros objetos uma medalha do Papa João Paulo, adquirida na tradicional Praça do Vaticano e uma máquina fotográfica. Numa rápida procura infrutífera tudo voltou a se normalizar, pois o mais importante eram os passeios. Deixaram em segundo plano a sugestão de comunicar o fato a polícia, lembrada por um companheiro. Este, tal como um "espírito dê porco" — bendito "espírito de porco" — não se conformava com a falta de interesse da Telma, pois tinha certeza que a autoridade resolveria a parada., Tanto fez o insistente que a conterrânea, mais para atendê-lo, na hora do regresse deu um "salto" no comissariado registrando a ocorrência.

Livre do assedio do colega, nossa conterrânea recuperou ia tranquilidade, mesmo não tendo dúvidas da impossibilidade de reaver a bolsa da Gilca.

Mas uma surpresa estava reservada para a família Flores. Decorridos 6 meses, a Embaixada Brasileira recebeu um "informe" de Viena, dando conta de que a decantada bolsa havia sido encontrada — fora esquecida num coletivo da cidade — e estava a caminho para ser entregue a sua verdadeira dona. A alegria foi contagiante e a repercussão atingiu os meios radiofônicos.

Todos apenas aguardavam a chegada do "objeto perdido". Na entrega Gilca e Telma avidamente conferiram os ”achados" cujo montante, ninguém lembrava a não ser a medalha do Papa e a máquina fotográfica.. Os cem dólares como foi avisado, Chegaram depois através do Banco do Brasil.

Além, dos rasgados elogios ao "espírito do porco" ficou comprovada a eficiência e honestidade das autoridades austríacas, enquanto fica no ar. uma pergunta do radialista:

— Se a bolsa fosse perdida no Brasil?

Rubens E. Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 07/01/1981

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

"Ilhéus, bonita até para se morrer

RIO — Ele era componente do corpo musicai da "Lyra Popular". Creio que até foi um dos seus fundadores. Com o pistonista de "primeira água" fazia dupla — e que dupla — com o famosíssimo Esmero Martins que, pelo seu "virtuosíssimo", foi contratado por uma Companhia de Comédias, depois de vitoriosa temporada em Belmonte. Na época, o comentário era que Esmero viajou porque ficou apaixonado pela "estrela"' do conjunto, artístico, uma fascinante argentina.

Mas esta crônica é dedicada ao musicista e titular do registro civil, Aristophanes Flores, conhecido pelo nome de Fanu ,transferido para Pedra Branca quando foi desmembrada da cidade sulina.

Sempre bem trajado. Fanu era um bom "papo" e possuidor de um jeito especial de fazer amigos e, o mais importante, mantê-los.

Já estava na hoje Itapebi quando me transferi para Ilhéus, em fins da década de 20, e lá encontrei outro conterrâneo e clarinetista de "mão cheia" Argemiro Santos, irmão do escritor-poeta Dario dos Santos. Argemiro, infeliz e inexplicavelmente se "jogou" ao vício da embriagues e faleceu anos depois, em completa obscuridade.

Certa vez, em gozo de férias — em vigor desde o governo Artur Bernardes — fui passar uma temporada em Pedra Branca, onde como ainda hoje, tenho parentes, além de um grupo de amigos conterrâneos.

Para “matar o tempo", passava o dia visitando e «papeando'" com conhecidos como Benjamin Andrade, Sylvio Testes, Lourival Sacramento, Antônio Lamarca — um italiano que vivia blasfemando por tudo — Eliezer Marinho, Lourival Sacramento, o barbeiro Antônio Bolandeira, Aprígio e Elpídio Pereira, Joaquim Bambá — o devoto de São João — Edson Moura, e, naturalmente, o escrevente Aristophanes Flores.

Com o Fanu, o "papo" era mais longo, pois o velho pistonista. conhecia bem a cidade onde, periodicamente a visitava, freqüentador que era dos cabarés, se hospedando na residência do seu irmão Claudionor Flores representante comercial.

Elogiava as belezas naturais da outrora "Princesa do Sul" na época, espremido, entre o Plano Inclinado e o coqueiral dos Pachecos e esbarrada pelos morros da Conquista, Teresópolis, Café e Ceará, que escondiam a Baixa Fria e o Buraco da Gia. Comentava a situação e o meio de acesso ao Alto da Conquista c o contorno da Avenida 2 de Julho, compreendida do Unhão ao Obelisco de Nossa Senhora de Lourdes. Era mesmo um admirador da Capital do Cacau.

Invariavelmente Fanu Flores terminava a palestra, como que vaticinando, com a seguinte frase; — Ilhéus é bonita até para morrer...

Urna tarde, cumprindo uma rotina, fui assistir a chegada de um navio da "Bahiana", que voltava de São José do Mucuri. No cais numero l, encontrei Claudicnor Flores, me informou que estava ali a. espera do irmão que doente, ia a Salvador para um tratamento intensivo. Esperava que o irmão demorasse pouco na capital do Estado, pois a; recuperação seria feita em Ilhéus.

Navio atracado, subimos à bordo. Num 'beliche' estava Fanu, com Dona Vivi sua esposa. A viagem de Canavieiras a Ilhéus serviu para agravar o estado de saúde do velho pistonista. Seguir viagem era uma temeridade e a solução foi o Hospital São José.

Não demorou, pois dois dias depois, eu, Claudionor, dona Vivi e uns poucos conhecidos, levamos Aristophanes Flores, para o Cemitério da Vitória, sua última morada.

Comentei, ainda no cemitério, meu encontre, em Pedra Branca, com o escrevente e as suas entusiásticas palavras sobre a bela cidade ,

Fanu atravessara o Jequitinhonha parte do Rio Pardo, para morrer justamente na cidade, não só para ele, mas para milhares de pessoas:

Bonita, até para se morrer...

Rubens E. Silva, Jornal da Manhã, Ilhéus/BA 13/Out/1979

Os Médicos dos Bons Tempos.

RIO – O homem estava pobremente vestido. Já havia percorrido quase toda a cidade. Iniciava sua «via-crúcis», onde muitos que tinham problemas iguais aos seus, na Praça Castro Alves .Daí na Rua Araújo Pinho .batendo primeiro no Bar do Martinho, depois na casa da Amália. Tudo em vão. Porém, a necessidade de encontrar àquele, que seria a sua «salvação da lavoura» o forçava a enfrentar: o temporal que caía sobre a cidade ia tentar mais um local como última cartada. Se dirigiu ao Largo do Unhão, mais precisamente ao cabaré de João Grande. Efetivamente não poderia entrar naquela sofisticada casa de diversões, onda a jogatina e o mulherio imperavam. Seus trajes o impediam e o jeito era implorar a ajuda, de qualquer "habituee" da casa.

Finalmente estava ali o homem que ia lhe socorrer. Tinha certeza absoluta de que seria atendido ,o que efetivamente -aconteceu.

Ao primeiro recado surgiu o velho e boníssimo Dr., Lopes que descendo as estreitas escalas de cimento foi ao encontra da pessoa- que o procurava

Tratava-se de um pescador. Precisava dos serviços do popularíssimo e solícito médico-parteiro. Sua esposa, no Pontal estava em dificuldades. Já havia passado a hora do nascimento de seu filho sem que a parteira conseguisse resolver a situação.

Sobraçando sua maleta com os instrumentos necessários o velho médico se dirige .ao cais da Praça Firmino do Amaral onde um pequeno escaler lhes esperava. Embarcou na frágil canoa e a travessia perigosa, devido ao temporal, feita pelo nervoso pescador, chegou ao fim sem incidentes

Parto laborioso que 'terminou com 'o dia claro. O pescador agradecido, fez questão de acompanhar, de volta no seu escalar, o bom médico que notara o estado de pobreza do casal, possuidor de outros filhos ainda menores.

Depois da travessia, menos perigosa, pois o temporal já havia terminado, ao saltar, Dr. Lopes sentiu que o seu ''cliente” estava querendo falar alguma coisa além do pagamento tradicional.:costumava receber, ou seja, «Deus te Ajude» diante da indecisão o médico perguntou o que queria. Acanhado respondeu: “É”…o senhor esqueceu de pagar a passagem…

Este episódio que todo o mundo conhece aí em Ilhéus, me foi relatado, anos depois aqui em minha casa, no Realengo. Diante do meu espanto o velho Lopes com aquele riso característico esclareceu:

─ Senti de perto a miserabilidade do lar que acabara de visitar e a cobrança era nada mais do que a necessidade que imperava no seio da família que os 2 mil réis ia amenizar.

Era assim o Bom Médico, uni verdadeiro exemplo de humanismo hoje raramente verificado, entre a classe médica, cuja maioria absoluta visa apenas o “vil metal”, e que põe acima de tudo, inclusive o solene juramento no ato da sua formatura, o interesse pecuniário.

A prova dessa afirmativa foi o inusitado movimento grevista dos residentes, na defesa de um alto salário, não condizente com os baixos salários recebido pela massa trabalhadora,

É bom esclarecer que a residência nos .hospitais é dada aos recém formados para que os mesmos, em determinado período ,adquiram a necessária experiência para melhor desempenho de suas futuras atividades, que por tradição devem ser exercidas com o máximo de humanismo.

Rubens E. Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 22/08/1979

Estranho Ritual da Pérola Desaparecida.

RIO — Conheci meu personagem de hoje quando, nos idos de 30 fazia ''cobertura" das excursões, esportivas pelo interior ilheense, através da "State" e pela primeira vez fui 'me bater" em Pirangí, refúgio de personagens da contestada zona de Sequeiro do Espinho. O primeiro contato foi por inlermédio do sempre lembrado colega Antônio Benvindo Teixeira, extraordinária pessoa humana possuidor de um modo especia! do fazer amigos e trasnsferi-los para seus amigos mais chegados.

Estou rne refeindo a António Peres hoje novamente de mãos dadas com a prosperidade. Outra vez, sim senhor. Isto porque quando o conheci há cerca" de 50 anos, estava bem situado na praça do outróra distrito de Ilhéus, com crédito ilimitado. Depois por verdadeiro idealismo ingressou na política e, como todo idea!ista que entra em política de corpo, e alma, acabou quase que naufragado, só se recuperando, anos depois, graças ao esforço e tenacidade, numa demonstração do quanto vale a popular máxima do poder é querer.

Antônio Peres, juntamente com Jovelina Andrade, batizou minha filha Augusta. Hoje desenvoíve intensa aíividade no seu escritório de representação aí na Rua Sete de Setembro, onde o (abor roo empata de, vez por outra, contar anedotas e "casos", como que para amenizar o "!esco-!esco” do embarque e desembarque das mercadorias, sem “esquecer" as anotações das vendas nem o envio das duplicatas.

Todos os aos encontro o compadre atarefado. Porém por mais. atarefado que esteia sempre arranja tempo para um "sabe da última?" ou -'conhece esta? Também aproveito para 'soltar' alguma, nos rápidos momentos.

Tenho piene certeza de que Peres não se fembra de uma ocorrência: inuzitada quando visitava um velho amigo no Pontal, há mais de 40 anos e que passo hoje para esta coluna.

Aproveitanüo uma tarde sem altos compromissos, o compadre resolvéu visitar um ve'ho amigo, juntamente com sua esposa Ester. Era um companheíro dos momentos das “vacas magras". Haviam vívido juntos a "intemperie" dos péssimos negócios, mais, cedo do que esperava, os bons ventos sopraram em favor do colega e na escala cromática da sorte o amigo havia somado muitos pontos colocando em situação previlegiada,

Era uma visita de surpresa, mesmo porque a amizade existente entre os dois era restrita o que garatia uma recepção, tipo entre famílias.

Ao chegar a casa do companhiro, encontrando a pena aberta o casal foi logo entrando, indo até a sala de jantar, onde um quadro até certo ponto extranho, rnotiou uma rápida parada. Sobre a mesa uma bonita gaioía imcbilizando um bonito Tucano Em redor todos da casa, .inclusive a empreqada, como que contritos parecendo até que balbuciavam frases estranhas, imitando uma reunião de umbanda. Ninguém tirava os olhos do Tucano que por sua vez se mostrava, espantado. ã cena deixou o casal estatïtico e um tanto apreensivo em duvida se devia ou, não interromper a 'concentração".

Como que despertando, a esposa do amigo, se apressou em explicar o .motivo da concentração, que o Peres "já estava pensando ser um ato de adoração ao Tucano e que aquilo devia vir se repetindo normalmente.

Tratava-se do seguinte: Nas primeiras horas da tarde o casa! se preparava para ir a Ilhéus quando, dando os últimos ."retoques" a dona da casa resoiveu apanhar a caixa de jóias para escolher os brincos que ia usar. Quando apanhou o adereço o pássaro com seu longo bico "grampeou" a pérola do alfinete da gravata do marido, engolindo-o para o espanto e desespero do csal Como solução resolveram que a jóia engolida seria facilmente "devolvida" caso se pudesse "encher a ave do alimentação. E era o que eles estavam tentando fazer.

Entretanto a estratégia não estava dando certo, pois há mais de três horas que o Tucano estava sendo forçado a se alimentar com as mais variadas frutas e continuava guardando no seu papo a linda e caríssima pérola que- ainda por cima era de estimação.

O Pérés e a patroa chegaram a participar da operação, sem resultados práticos, já que o tucano dando mostra de cansaço caiu nurn sono profundo e os 'trabahos' transferidos para outro dia.

Rubens E. Silva. Jornal da Manhã 27/02/1981

Dr. Lopes no Anedotário das Profissões

RIO — 1980, sem dúvida alguma, ficará marcado por muitos anos, na memória dos apreciadores e da literatura e da música, nas suas mais variadas modalidades. Isto porque no decorrer dos seus trezentos e sessenta e cinco dias, ocorreram desaparecimentos dos mais expressivos cultores das .sublimes artes.

No período, completaram o inexorável circulo da vida, chegando ao fim da estrada, grandes nomes tais como Fernando Leite Mendes, Vinícius de Moraes, Nelson Rodrigues, Davïd Násser, Luiz Reis, Abel Ferreira, Ismael Silva, Almirante, Cartola e Pelado este pouco falado e divugado compositor), que, ao som da Bateria Nota 10 André, foram ao encontro de velhos companheiros há muito transferidos para o "outro lado".

Almirante — Henrique Fôreis Domingues — a maior Patente do Rádio, era meu conhecido de alguns anos, através dos seus maravilhosos programas radiofônicos transmitidos pela rádio Tupy. Era ouvinte incondicional de Histórias das Danças, Tribunal de Melodias, Costumes de São João, Histórias do Rio Pela Música, Recolhendo o Folclore, Incrível, Fantástico e Extraordinário e Anedotário das Profissões, do qual participei como colaborador, pois o programa era; feito através da correspondência dos ouvintes, e eu era um deles. Por umas vezes meus "casos11 foram aproveitados e divulgados, fazendo jus a um "pró-labore" de 20 pratas. Ainda me lembro quando o correio me comunicou existir um "vale - postal" na Agência que já esperava pois ouvira meu primeiro "caso" irradiado. Depois outras comunicações. E quanta coisa fiz com os cruzeiros recebidos. Mesmo porque naquele tempo a nossa moeda não estava tão,.por baixo assim. Ainda não era classificado de "tadinho..."

Minhas anedotas não eram propriamente anedotas. Eram na verdade fatos da vida real. A maioria delas era referentes a Ilhéus e Belmonte destacando, como personagem o velho amigo e compadre Dr. João Batista Soares Lopes, verdadeiro manancial das mais incríveis histórias que todo ilheense sabe de cor e salteado.

Quem não sabe, por exemplo, do caso daquele canoeiro-pescador do Pontal que depois de atravessar o médico numa noite tempestuosa e na volta depois de um parto laborioso na sua esposa, ainda cobrou ao Dr. Lopes as passagens? Ninguém se esquece da recepção que um garoto fez ao Bom Médico ao encontrá-lo numa espaçosa rede aguardando a hora da sua genitora. E o caso do parto milagroso no Alto de São Sebastião que o médico morreu sem conseguir explicar?

Mas com tantos casos assim era justo que surgissem muitas histórias, tendo como personagem o boníssimo médico. Dentre tais casos o da grã-fina que não podendo dispensar a assistência do Dr.,Lopes, na hora do parto demonstrando o seu espírito racista, exigiu que o doutor usasse luvas para "aparar" a criança. A exigência foi cumprida, mas ao ser pedido o preço tio parto, o nosso saudoso médico apenas respondeu: A senhora só vai pagar apenas as luvas que vou deixar aqui como lembrança.

Certa vez aproveitando a estadia do Dr. Lopes aqui no Rio, o convidei para ; um almoço. Convite aceito. Apenas uma exigência: ir buscá-lo em Ipanema na casa do seu compadre Telemaco Ataide. Exigência cumprida e num belo domingo trazia o compadre a Realengo.

Num dia maravilhoso. Muitas histórias. Lembranças ao seu clube preferido Vitória, onde todos os seus íilhos — Lulu, Zeca-Lopeu, Seu Vaga e Tuica deram valiosas contribuições no campo de futebol.

Quis confirmação "dos casos citados e todos eles, com excessão o da luva, íforam confirmados com euforia e gostosas risadas da minha parte pois meu hóspede demonstrava a sua satisfação com apenas um ar de riso e o brilho dos olhos.

No caso da luva, como se fosse uma triste passagem da sua vida de médico, evitou a resposta esperada.

Meses depois daquela visita ao Rio e, especialmente a Realengo, falecia em 'líhéus aquele que, sem dúvida alguma foi o grande benemérito da cidade, cujo enterro foi uma consagração.

Rubens E. Silva. Jornal da Manhã. Ilhéus/BA 24/03/1981

Falecimento de Rubens E. Silva

Rubens Esteves a Silva


Foi para mim uma dolorosa noticia saber do falecimento de Rubens E. Silva, querido cronista do TABU, do "Jornal da Manha", de Ilhéus, e um dos fundadores do "Diário da Tarde", de Ilhéus.

Hoje telefonei para Perrucho comunicando-lhe o triste acontecimento e pude perceber o impacto que a notícia lhe causou.

Rubens tinha o hobby de manter acesa a lembrança do passado, principalmente se essa lembrança fosse a de um velho amigo. Com as suas famosas crônicas ele procurava trazer aos dias presentes e à memória de cada um, pessoas de outro tempo com todas as suas características na mais pura intimidade.

Rubens veio radicar-se no Rio do Janeiro cm novembro de 1942, deixando o cordão umbilical plantado em Belmonte, sua santa terra natal, passando por Ilhéus e Canavieiras onde soube conquistar um sem número de amigos.

No Rio de Janeiro também Rubens continuou semeando sua bondade o colhendo novos amigos.

Em Realengo montou seu quartel general. Com Dona, Maria do Carmo Silva, sua digníssima esposa, plantou as estacas e montou as estruturas de uma sólida família.

Entre o pessoal das indústrias gráficas, marcou sua presença tornando-se um grande líder no meio deles, no sentido de ajudar os mais carentes.

Aposentou-se, porem não viu nisso um motivo para parar e sim uma razão para ter mais tempo de ajudar aos semelhantes. l

Com mais alguns colegas, fundou a Associação dos Inativos da Indústria e, por mais de oito vezes, foi reeleito pela totalidade dos votos. ]

Na Associação dos Inativos, conseguiu fazer transitar processos que se achavam encalhados no arquivo do INPS, trazendo de imediato uma solução tão esperada.

Foi presidente do Cruzeiro Futebol Clube e membro do Conselho do Centro Recreativo dos Industriários de Realengo.

Rubens deixou a esposa, D. Carminha, e mais cinco filhos, sendo duas professoras, e uma técnica em Artes Gráficas, um filho sub-oficial da Aeronáutica e o outro formado em Administração de Empresas.

Muito poderíamos falar sobre Rubens, mas deixemos que cada um guarde na lembrança a faceta que mais apreciou naquele homem tão bom.

Geraldo Ferrer Tabu núm. 260. 1ª quinzena junho 1981. Canavieiras BA

A decadência de um conjunto padrão

A decadência de um conjunto padrão





RIO – Fui um dos primeiros locatários do conjunto Residencial do IAPI de Realengo, inaugurado em março de 1943, quando presidia :a autarquia dos industriários, o engenheiro Plínio Catanhede que, na época, por exceção, me proporcionou a oportunidade de adquirir uma das casas do conjunto.

A nova cidade tinha administração própria, com seus responsáveis residindo na localidade para atender os moradores, assistidos por um médico e um serviço assistencial digno de nota.

Ruas largas com áreas ajardinadas, bem tratadas por funcionários responsáveis, o complexo era mostrado aos visitantes como uma das obras mais importantes do governo Getúlio Vargas, espécie de trabalho pioneiro para servir de base para novos conjuntos. Havia uma equipe para a conservação das casas, já que era proibido aos moradores executarem qualquer alteração nos imóveis, função exclusiva do administrador que, por sinal, era rigoroso cumpridor das ordens determinadas pela alta direção do ex-IAPI. Goniglo, o nome do administrador que não transigia e até se excedia no cumprimento das ordens. Ás 1500 unidades, residenciais, na maioria casas baixas, eram visitadas religiosamente pelo médico Dr. Cláudio Mesquita, cuja franqueza era criticada acremente pelos moradores que não estavam acostumados com determinações higiênicas postas em prática pelo facultativo e, graças a sua firmeza, foi possível debelar um princípio de epidemia...

A supervisora do Conjunto era uma alta funcionária do Ministério do Trabalho, que era responsável pela assistência social aos moradores, mantendo um serviço eficiente de atendimento, com distribuição de remédios, alimentação e até vestuário, aos mais carentes. Também proporcionava festas sociais dedicadas aos filhos dos moradores, Zenith Miranda, seu nome.

Complementando o quadro existia um Conselho de Locatários, composto de 15 moradores, com contato direto com os setores administrativos da autarquia para levar as reivindicações da localidade. A escolha dos membros deste Conselho era por votação direta em eleições livres.

Apesar das deficiências devido a falta de comércio e a precariedade de meios de transportes, pois a condução era feita através de trens da Estrada de Ferro Central do Brasil, o Conjunto ia bem, pois os problemas surgidos eram solucionados pela administração.

Posteriormente o Conjunto foi ampliado com a construção de apartamentos durante o governo Gaspar Dutra, aproveitando vastas áreas até perto de Bangu. Mas em 1953 a localidade foi declinando com a modificação da Portaria que criou o setor imobiliário do instituto.

Primeiro foi desativado o eficiente atendimento médico dirigido pelo. Dr. Cláudio Mesquita, que sozinho prestava mais serviços à população que o recém criado Posto do SAMDU. depois desativado. A saída de Goniglo determinou o abandono da localidade que também perdeu seu serviço social de tanta utilidade. Posteriormente o Conselho de Locatários deixou de existir, em face da unificação dos institutos de previdência.

Ante a situação, grande número de locatários começou abusar, "avançando" nas áreas ajardinadas para complementar seus quintais. Alguns mais ousados se apoderaram de vastas áreas, construindo garagens nas ruas, fazendo proliferar oficinas de serralheiros e locais de consertos de automóveis, sem nenhuma intervenção da Coordenadoria do Patrimônio que entregou de "mão beijada" vasto acervo adquirido pelas contribuições de trabalhadores e, como castigo, determinando que as casas construídas em 1940, venham tendo crescente valorização sentida com os constantes aumentos das prestações em face da maldita correção monetária.

O Conjunto está decadente, porém se transformou numa fonte de renda para o Banco Nacional de Habitação que, no nosso caso, entrou com a "cara e a coragem",

Mas num mandado de segurança contra a cobrança da correção monetária nas nossas casas, um juiz achou justa a cobrança enquanto votava a eliminação para os imóveis do Instituto cons...(linha incompleta)

Rubens E Silva, Jornal da Manhã Ilhéus/BA 10/01/1980